não me lembro ao certo como ou quando surgiu minha paixão pela escrita, mas me recordo de que, aos 11 anos, meu sonho era ser escritor. escrever, na época, era esteticamente atrativo, a ideia de passar noites escrevendo, fazer lançamentos em livrarias, “saber das coisas” e ser reconhecido por isso. parecia um plano.
durante o ensino médio, tendo isso em mente, pensei em cursar direito — “tem que ler e escrever bastante”, pensei. mas… não era isso. não era esse o ‘escrever’ que procurava.
os caminhos do destino, ou algo assim, me levaram à psicologia e, através dela, o hábito de escrita tornou-se mais ou menos constante em minha vida. inicialmente, em meu próprio processo terapêutico, como forma de registro diário, ‘journaling’. vários cadernos, preenchidos de vida, angústias, devaneios, desejos.
o hábito de escrita mostrou-se de inestimável valia. uma ampliação da percepção, um ‘tentar dar forma’ aos afetos e experiências internas, a melhor das ferramentas para dar coesão e estrutura aos meus anseios, tornando-os como uma unidade em desenvolvimento.
no entanto, o escrever mudou com o tempo. mudou junto comigo ou, talvez, eu junto com ele. tornou-se quase involuntário, um fim em si mesmo, uma aventura. como sondar um nevoeiro, ou um oceano, ou um céu limpo (a depender do dia).
gosto de pensar que esse sempre foi (para mim) o verdadeiro escrever, um processo de curiosidade e exploração, e eu apenas estou encontrando-o, cada dia um pouco mais, me aproximando daquilo que minha alma já sabia e me contou, como um sussurro, quando tinha 11 anos.
“Eu escrevo como se fosse para salvar a vida de alguém. Provavelmente a minha própria vida.” – Clarice Lispector, “Um sopro de vida”.