INVENTIO.

há um termo em latim que me fascina: inventio. etimologicamente deriva do verbo invenire, que significa algo como “encontrar”, “descobrir”. no entanto, ao longo do tempo, o termo evoluiu para o sentido atual comum de “inventar”, isto é, criar algo novo.

ouvi esse termo pela primeira vez durante uma aula do professor e pesquisador de ciências cognitivas da Universidade de Toronto, John Vervaeke, em sua série de aulas awakening from the meaning crisis, disponibilizadas online (recomendo, são incríveis kk). 

desde então, essa curiosidade e, sobretudo, o conceito de inventio ficaram comigo. o significado original parecia me revelar muito mais sobre este aspecto da vida, o inventar, o ato criativo. assim como afirma sua etimologia, ele nunca me pareceu algo bruto, feito do zero, do nada (creatio ex nihilo). mas, ao contrário, muito mais próximo de um desvelar, um encontrar e tirar de dentro de si, através da inspiração, comoção, raiva ou outros aspectos da vitalidade.

tive uma conversa profunda sobre o assunto com um amigo que, também psicólogo, realizou uma pesquisa sobre criatividade e, tenho certeza, possui um entendimento muito maior sobre o processo criativo do que o meu. 

nessa conversa, ele me introduziu ao conceito de “incubação”, como uma etapa do processo criativo, caracterizada pelo distanciamento consciente da arte após um longo período de imersão, pesquisa e envolvimento. 

nesse afastamento, paradoxalmente, algo parece seguir ‘trabalhando’, ou melhor, sendo trabalhado, internamente, dessa vez. como num cozimento inconsciente, ganhando força, coerência (ou perdendo-a). surgem então novos tons e cheiros; uma matéria viva, reorganizando-se fora do alcance da consciência. 

a realidade é que não sei se é bem assim… precisaria ler mais, viver mais. 

mas “o inventio” em mim permanece e, com ele, sigo mergulhando, explorando, atravessando tudo aquilo que me convida, me desafia, se revela e, com isso, continuo criando. 

e a cada esquina da vida, a mim mesmo repito, como um mantra: “vou me encontrando enquanto invento. vou me inventando enquanto encontro.”