Definir a visão de saúde mental por conta própria pode ser uma tarefa um tanto pretensiosa. Para tal, seria preciso não só solucionar a problemática conceitual do processo saúde-doença, como também atribuir um consistente entendimento para aquilo que se entende por mente, sua natureza, funcionamento, o desenrolar das suas perturbações e sua amplitude etiológica. Diante disso, o texto de Sean Hughes “A filosofia da ciência em sua aplicação à psicologia clínica”, oferece um interessante norte para um posicionamento categórico. Por meio da valorização das diferenças lídimas de cada visão de mundo, o psicólogo pode “escolher” a sua, articulando coerentemente os pressupostos que vão dar consistência posterior para a atuação clínica e científica.
Tendo isso em mente, tomando as categorias do texto como base econsiderando a minha construção pessoal e preferências durante o percurso clínico e acadêmico até então, posso dizer que, no âmbito ontológico e epistemológico, tenho uma inclinação proeminente ao pós-positivismo. Assim, penso que existe uma realidade para além da subjetividade, no entanto tal realidade “pura” é inalcançável, apenas aproximada, considerando que o cientista é incapaz de despir-se totalmente de seus vieses e que seus métodos estão sujeitos ao erro. É a partir do processo de multiplismo crítico, citado no texto, que se pode realizar um “polimento” da percepção, visando apresentar a realidade mais próxima possível. Dessa forma o real serve como meta, caminho, mas jamais como fim, o objetivo é, portanto, adquirir uma crescente plausibilidade.
Nesse contexto pós-positivista, é possível exemplificar tomando como norte a visão do psicólogo suíço Carl Gustav Jung, que, reconhecendo a complexidade da psique, sugere que a mente não pode ser simplificada para se adequar a teorias rígidas. Para ser analisada, portanto, ela deve ser pensada como algo amplo e dinâmico, que não pode ser reduzido, mas compreendido progressivamente, em um processo contínuo de exploração e enriquecimento da consciência (JUNG, 2011). Consoante ao que foi apresentado no parágrafo anterior, o objeto de estudo, nesse caso, a mente, não seria algo a ser totalmente encapsulado e inteligível, mas a análise teria por objetivo um movimento crescente de plausibilidade.
Dando continuidade, colocando em pauta os 4 modelos de Pepper, mencionados por Hughes, penso que o mais adequado em termos de articulação com minha visão previamente exposta seria o organicismo. Fugindo da lógica “causal-linear” do mecanicismo e, também, do relativismo imperativo do contextualismo, o organicismo permite uma busca autêntica da realidade sem torná-la um absoluto redutivo, mas, a partir da análise de uma rede de fatos convergentes, obter satisfatória coerência sobre o todo, não somente para o observador, como uma opinião, mas como uma realidade, dentro do possível, compartilhada. Semelhante a noção aristotélica de forma, o todo seria algo como o princípio de identidade do objeto de estudo que permitiria conceber certa
objetividade a ele (ZINGANO, 2003). É imprescindível ressaltar que, ainda assim, perante a análise, o observador está sempre sujeito ao erro e mesmo as formas têm natureza errante, isto é, se atualizam com a ação do tempo.
Por fim, fica explícito como, ainda que pretensiosa a tarefa de atribuir uma visão de saúde mental, ela não é somente possível como necessária se almejamos cuidar de forma consistente do sofrimento humano e promover bem-estar. Nesse sentido, eticamente, o aprofundamento constante dos conhecimentos dentro de sua visão de mundo específica mostra-se necessário, para que haja um manejo cada vez mais seguro e robusto. Por outro lado, a unilateralidade sempre está sujeita a pontos cegos e distorções. Mesmo que outras visões não dêem a sustentação adequada àquilo que, individualmente, me proponho a tratar, sua existência é fundamental para a psicologia como um todo, para que consiga abranger o mais amplo escopo de aspectos no tocante à saúde mental e, para mim, em específico, para dialogar com minha perspectiva e descontaminar-me de meus vieses. Ao pensarmos em cuidado, a função do psicólogo não é “dar conta” da saúde mental integralmente, mas ter subsídios para contribuir de forma significativa, seja no contexto científico ou clínico.
REFERÊNCIAS:
HUGHES, Sean. A filosofia da ciência em sua aplicação à psicologia clínica. In : HAYES, Steven C; HOFMANN, Stefan G (null). Terapia cognitivo-comportamental baseada em processos: ciência e competências clínicas. Porto Alegre: Penso, 2020. 1 recurso online. ISBN 9786581335069. (CAPÍTULO 2 – Disponível na Biblioteca online da PUCPR
JUNG, Carl Gustav. Psicologia do inconsciente. Editora Vozes Limitada, 2011.
ZINGANO, Marco. Forma, matéria e definição na Metafísica de Aristóteles. Cadernos de História de Filosofia da Ciência, serie, v. 3, p. 277-300, 2003.