confesso que sempre fui reticente em relação a James Hillman. sua disrupção e ousadia frente à teoria junguiana sempre soaram “um pouco demais para mim”. entretanto, a leitura de “O código da alma” me fez entender que, talvez, fosse exatamente disso que eu precisava.
o conceito central do livro, inspirado no mito de Er, narrado por Platão ao final da República, é a teoria do fruto do carvalho (ou teoria da bolota, nome engraçado kkk).
trata-se de uma imagem bastante simples: assim como o fruto do carvalho já carrega dentro de si o potencial para se tornar um carvalho (e não outra coisa), cada sujeito nasce com uma imagem própria, singular, inscrita em sua alma, como um chamado que nos acompanha. Hillman percorre culturas e tradições diferentes para nomear essa mesma intuição: daimon, gênio, anjo da guarda, destino. como se cada povo, à sua maneira, percebesse que há algo em nós proveniente de “um outro lugar”, que não encontra explicação suficiente nas influências dos pais, do ambiente ou no mero acaso.
um dos pontos mais interessantes, para mim, é a sua provocação acerca da separação entre os “dois mundos” (visível e invisível). o abismo entre os eventos/fatos cotidianos e a forma como eles realmente são sentidos, imaginados e apreciados individualmente. a valorização exclusiva daquilo que pode ser visto, descrito ou mensurado, tão característica do imaginário moderno, acaba por tolher boa parte da “experiência de realidade” que de fato vivemos.
ignorando como o sujeito sente, compreende e, sobretudo, habita sua realidade, atravessando os desafios de sua vida prática, tornamos-nos vulneráveis ao erro de, através de métricas frias, diagnosticá-lo de forma terrivelmente equivocada. e isso não é válido somente para psicólogos e pacientes, mas pais e filhos, professores e alunos, amigos, casais, e até mesmo para a relação do sujeito consigo mesmo.
há de existir um espaço para o irracional, para o invisível, para os nossos caprichos. o “faço porque eu gosto”, “porque me chama”, “porque eu sinto que nasci pra isso”. priorizar a mobilização, o devir e não as explicações lógicas, convenientes ou ditas “racionais”.
a subversão de Hillman, assim, não visa desbancar, através de algum argumento contundente ou comprovações, o pensamento desenvolvimentista e determinista, mas refrescar as lentes da psicologia, que se tornaram turvas, desgastadas, repetitivas. sua ideia é propor um entendimento mais enraizado e mitológico do que é o desenvolvimento, e vislumbrar como essa forma de ver o mundo proporciona mais sentido, agência e vitalidade ao sujeito que a internaliza.
há quem diga que tais noções são infantis demais, por priorizar o “chamado” e “o invisível” em detrimento à adaptação social. talvez. mas suas provocações não deixam de me encantar, e me mover através desse encanto.
do que mais precisamos senão provocação pueril e encantamento em um mundo adulto que tornou-se tão burocrático, caricato e carrancudo?